O Homem que Orou e o Céu Obedeceu: A Oração de Elias

Texto Bíblico: Tiago 5.13-18, com 1 Reis 17 e 18 como pano de fundo

Introdução

Quando Tiago quis ensinar o poder da oração, não apontou para um anjo, um apóstolo ou o próprio Cristo. Apontou para Elias, e disse que ele era “homem semelhante a nós”. Isso é desconfortável, porque nos tira a desculpa.

Muitos de nós admiramos Elias de longe e deixamos que ele fique no museu dos heróis da fé, para não termos de pagar o preço de orar como ele orou.

Pergunto à igreja: quando foi a última vez que você orou de um jeito que, se Deus não respondesse, tudo desmoronaria? Muitos oram por hábito, por medo ou por proteção, mas poucos oram por convicção. Hoje não vamos admirar Elias. Vamos aprender com ele e ser confrontados por ele. Quem está disposto a ouvir não sairá igual.

Contexto Histórico

Elias, cujo nome em hebraico, Eliyahu, significa “Meu Deus é Yahweh”, viveu no Reino do Norte (Israel) por volta de 870 a 850 a.C. Era natural de Tisbe, em Gileade, região rústica a leste do Jordão. Não era sacerdote nem pertencia a nenhuma casta religiosa. Era um homem do campo.

O rei era Acabe, que reinou aproximadamente de 874 a 853 a.C. e, segundo as Escrituras, fez mais mal que todos os que o antecederam (1 Rs 16.30-33). Casou-se com Jezabel, filha de Etbaal, rei de Sidônia, e com ela trouxe para Israel o culto a Baal. Baal era o deus cananeu da tempestade e da fertilidade, aquele a quem se atribuíam a chuva, a colheita e a vida. A nação vivia sincretizada, tentando servir a Yahweh e a Baal ao mesmo tempo.

Teologicamente, a Lei já havia avisado. Deuteronômio 11.16-17 e 28.23-24 prometiam que a idolatria traria o fechamento dos céus. A seca que Elias anunciou, de três anos e meio (Lc 4.25; Tg 5.17), foi, portanto, a aplicação da aliança e não um capricho profético. Ela também funcionou como um desafio direto a Baal: se ele era o deus da chuva, que a mandasse. O clímax se deu no Monte Carmelo, onde Yahweh respondeu com fogo e depois com chuva.

O Homem que Orou e o Céu Obedeceu: A Oração de Elias

I. Uma Oração De Homem Comum (Tg 5.17)

A. Tiago usa a palavra grega homoiopathēs, que significa “sujeito aos mesmos sentimentos, fraquezas e limitações”. Elias tinha fome, cansaço, emoções e medos como nós. A Bíblia faz questão de nos dizer isso.

B. Logo depois do maior triunfo da sua vida, Elias fugiu de Jezabel, sentou-se debaixo de um zimbro e pediu para morrer (1 Rs 19.1-4). O homem que fez descer fogo do céu também foi capaz de entrar em depressão. Deus nunca escondeu as fraquezas dos seus servos.

C. O poder da oração nunca esteve na estatura do orador, mas no Deus a quem ele ora. Paulo diz que temos o tesouro em vasos de barro, “para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2 Co 4.7).

D. Chamar Elias de super-herói é uma forma sutil de nos isentarmos. Se ele foi especial, nós estamos dispensados. Mas Tiago diz o contrário: se ele era como nós, então nós podemos orar como ele.

E. Desafio: você está esperando se sentir digno ou forte para orar? Elias orou sendo quem era. Comece onde você está.

II. Uma Oração Enraizada na Palavra (1 Rs 17.1; 18.36)

A. Elias não orou por impulso emocional. Ele sabia o que Deus havia dito em Deuteronômio sobre a idolatria e a seca. Sua oração era eco da Palavra, e não invenção de homem.

B. No Carmelo ele declara: “Fiz todas estas coisas segundo a tua palavra” (1 Rs 18.36). A oração que move o céu é aquela que concorda com o coração revelado de Deus.

C. João escreve: “Se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 Jo 5.14). Quem não conhece a Bíblia ora no escuro e confunde desejo com fé.

D. Jesus disse: “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito” (Jo 15.7). Permanecer na Palavra molda o que pedimos.

E. Desafio: sua vida de oração é maior que a sua vida de leitura bíblica? Uma oração sem Palavra se torna lista de desejos, e uma Palavra sem oração se torna apenas informação.

III. Uma Oração Nascida da Presença (1 Rs 17.1-16)

A. Elias se apresenta ao rei com estas palavras: “Vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou” (1 Rs 17.1). O verbo hebraico ‘āmad (estar em pé) é o linguajar de um servo diante do rei, pronto para receber ordens. Elias vivia diante de Deus antes de falar diante de Acabe.

B. Antes do Carmelo veio o ribeiro de Querite (17.2-6), um lugar de solidão, dependência e silêncio. Deus não forma intercessores em palcos, mas em esconderijos.

C. Depois veio Sarepta (17.8-16), onde Elias foi sustentado por uma viúva pobre, em terra de Jezabel. A oração pública foi precedida de anos de oração secreta e de humilhação diária.

D. Jesus ensinou: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto... e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). O poder que a igreja vê no Carmelo se constrói no Querite que ninguém vê.

E. Desafio: a sua autoridade diante dos homens é proporcional à sua intimidade com Deus? Quem não tem Querite não sobrevive ao Carmelo.

IV. Uma Oração Que Confronta a Idolatria (1 Rs 18.20-39)

A. O Carmelo não foi apenas um evento de oração. Foi um tribunal. Elias pergunta ao povo: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (18.21). O verbo hebraico pāsach sugere mancar, saltitar de um lado para o outro. O povo não era ateu, era dividido.

B. Os 450 profetas de Baal gritaram, dançaram e se feriram da manhã até a tarde, e “não houve voz, nem quem respondesse” (18.26-29). Muitas palavras não equivalem a mais poder. Jesus advertiu contra “vãs repetições” (Mt 6.7).

C. A oração de Elias foi curta, direta e centrada em Deus: “Responde-me, Senhor... para que este povo saiba que tu, Senhor, és Deus” (18.36-37). Ele não orou para se promover, mas para que o nome de Deus fosse revelado.

D. Antes da resposta, Elias reparou o altar do Senhor que estava em ruínas (18.30). Não há avivamento sem reconstrução, e não há fogo sem altar. O que precisa ser consertado na sua vida para que o fogo possa descer?

E. Desafio: qual é o Baal da sua geração? Pode ser o dinheiro, o prestígio, a autossuficiência ou o entretenimento. A oração de Elias nos lembra que não se ora de verdade enquanto se serve a dois senhores (Mt 6.24).

V. Uma Oração Persistente (1 Rs 18.41-45)

A. Depois do fogo, Elias subiu ao cume do Carmelo e “se encurvou por terra, e meteu o seu rosto entre os joelhos” (18.42). Era a postura de uma mulher em trabalho de parto. A oração, às vezes, é uma luta de nascimento.

B. Antes de ver qualquer nuvem, ele já ouvia “o ruído de abundante chuva” (18.41). Fé é ouvir pela promessa o que os olhos ainda não veem (Hb 11.1).

C. Seu servo olhou para o mar seis vezes e não viu nada. Elias disse: “Volta”. Na sétima vez, surgiu uma nuvem pequena como a palma da mão de um homem (18.43-44). O início da resposta de Deus costuma ser pequeno, e quem desiste cedo perde o que estava a caminho.

D. Jesus ensinou “que importa orar sempre e nunca desfalecer” (Lc 18.1). O grego ekteneia (Lc 22.44; At 12.5), traduzido por “intensamente” ou “fervorosamente”, descreve uma oração esticada ao máximo, como um músculo em esforço.

E. Desafio: o que você parou de pedir porque ainda não viu a nuvem? Desistir da oração pouco antes da resposta é uma das maiores tragédias da vida cristã.

VI. Uma Oração Que Transforma Pessoas e Nações (1 Rs 18.37-46; Tg 5.16-20)

A. Tiago diz que “a oração fervorosa do justo pode muito” (5.16). O verbo grego energoumenē (de onde vem “energia”) mostra uma oração operante, ativa, carregada de poder. O adjetivo dikaios (justo) descreve alguém que vive em relacionamento correto com Deus, e não alguém perfeito.

B. A oração de Elias não só mudou o clima, mas também o coração do povo: “Tu converteste o coração deles” (18.37). A oração mais poderosa não é a que muda as circunstâncias, mas a que quebra o orgulho e traz arrependimento.

C. O fogo caiu, o povo se prostrou e disse: “O Senhor é Deus!” (18.39). Quando a Igreja ora de verdade, o mundo não precisa ser convencido por argumentos, porque reconhece a presença de Deus.

D. A mão do Senhor veio sobre Elias, e ele correu adiante da carruagem de Acabe até Jezreel (18.46). Quem ora também é revestido para obedecer. Oração e ação caminham juntas.

E. Elias foi grande, mas Jesus é maior. Cristo vive sempre para interceder por nós (Hb 7.25; Rm 8.34). Nossa confiança final não está na intensidade da nossa oração, mas na intercessão do Filho, que nunca falha.

Conclusão

Elias nos ensina que a oração eficaz não nasce de técnica, de eloquência ou de personalidade. Nasce de uma vida que se apresenta diante de Deus, fundamenta-se na Palavra, confronta a idolatria, persevera e deseja a glória do nome de Deus acima de tudo.

Tiago nos lembra que ele era “homem semelhante a nós”. A diferença entre Elias e nós não está no tamanho de sua natureza, mas na profundidade de sua entrega. O mesmo Deus que fechou e abriu os céus ainda está no trono. Ele não procura gigantes, mas homens e mulheres dispostos a ficar de joelhos até que a nuvem apareça.

A pergunta que fica é a que Elias fez ao povo: até quando? Até quando viveremos divididos, orando pouco e esperando muito? Hoje é dia de voltar ao altar.

Aplicação

1.  Defina um Querite pessoal. Reserve um horário e um lugar diários para estar a sós com Deus, sem celular nem pressa. Comece com quinze minutos e seja fiel.

2.  Ore a Palavra. Escolha um salmo ou uma promessa e transforme-os em oração. Deixe que a Bíblia dê o vocabulário das suas petições.

3.  Identifique o seu Baal. Pergunte ao Senhor o que está dividindo o seu coração. Confesse e reconstrua o altar, isto é, restabeleça hábitos de devoção, de comunhão e de obediência.

4.  Escolha uma nuvem para perseguir. Defina um pedido específico (um familiar distante, uma igreja, uma cidade, um vício) e ore por ele durante quarenta dias, sem desistir. Registre as respostas, mesmo as pequenas.

5.  Ore com outros. Tiago nos exorta a confessar os pecados uns aos outros e a orar uns pelos outros (5.16). Forme um pequeno grupo de intercessão e reúna-se semanalmente.

6.  Ore pela sua nação. Elias orou por um povo que o perseguia. Interceda por governantes, por sua cidade e por aqueles que não creem, para que o coração deles se volte ao Senhor.

7.  Descanse na intercessão de Cristo. Quando você se sentir fraco, lembre-se de que Jesus está à direita do Pai intercedendo por você. Sua oração se apoia na dele. 

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